| COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE |
Editorial
É com grande satisfação que chegamos a este número 23 do Boletim da Comissão Maranhense de Folclore, lançando como parte das comemorações da Semana da Cultura Popular de 2002. Há muitos anos a Semana da Cultura Popular vem sendo comemorada no Maranhão como em outros Estados, sempre acompanhada de ampla série de estudos e apresentações de grupos folclóricos. Este ano começamos brilhantemente com a conferência sobre o Local e o Global pela socióloga maranhense Dra. Alba Maria Pinho de Carvalho, seguida da abertura de muito interessante exposição sobre Instrumentos Musicais usados no Maranhão e em outras partes do mundo. A programação incluiu uma série de apresentações de pequenos conjuntos musicais do interior, que lembram nossas raízes nos trovadores medievais, dos rabequeiros, sanfoneiros, cantadeiras e repentistas nordestinos e maranhenses cujos cânticos continuam povoando o imaginário de nossa gente nas noites do sertão. Depois do 10º Congresso Brasileiro de Folclore realizado em São Luís entre 18 e 22 de junho passado, cujo êxito continua sendo comentado por muitos amigos que nos têm escrito, estamos iniciando trabalhos de preparação dos Anais do Congresso, com a revisão dos inúmeros textos de grande interesse apresentados, que esperamos publicar no ano vindouro. O 10º Congresso contou com mais de 400 participantes e outro tanto de estudantes e interessados que participaram das oficinas e mini-cursos. Fomos honrados com a presença de quase todas as Comissões Estaduais de Folclore, muitas com grande número de representantes, que vieram também conhecer um pouco da beleza extraordinária do folclore junino no Maranhão. Este número do Boletim comenta a Festa do Divino, as festas Juninas em São Luís, apresenta resenha de documento noticiando festa popular com comédias e comeres, na cidade de Alcântara em inícios do século XVIII e uma sutil "carta de São Pedro aos ludovicenses", comentando recentes alterações no espaço da capela de sua festa na cidade. Apresenta debate sobre práticas culturais e o cotidiano, estórias de encantados coletadas no interior, notícias sobre perseguições e preconceitos religiosos, texto sobre opressão e resistência na religião afro-brasileira, diálogo sobre o popular e o erudito e ainda comentário sobre a pesquisa etnomusicológica no Brasil. O número termina apresentando, na coluna Perfil Popular, a simpática figura de Dona Maria Roxinha, da Casa das Minas Jeje de São Luís. O site com quase todos os números anteriores de nosso Boletim continua muito procurado na internet. Esperamos com mais este número corresponder a expectativa de estudiosos e interessados na cultura popular de nossa terra.
Sergio Ferretti Presidente da Comissão Maranhense de Folclore
Carta de São Pedro aos Ludovicenses
Gustavo Pacheco
Amado povo da cidade de São Luís, Já fui homem um dia, e por vezes as paixões humanas voltam a me assaltar. Peço licença para dividir com vocês algumas delas, e peço ao altíssimo que me inspire na empreitada (se Deus escreve certo por linhas tortas, quão tortas serão as minhas linhas?) A devoção não está nos objetos, mas no coração de cada um. Assim sendo, pouco me importa se me louvarem em uma imensa basílica ou em um barracão coberto de pindoba. Mas não pude deixar de me espantar com o jeito como trataram a antiga capelinha a que eu tinha tanto apreço. Que não tenham me consultado, vá lá, isso posso entender. Mas alguém perguntou aos meus devotos e aos moradores da Madredeus o que eles achavam? Se perguntaram, eu não vi (é verdade que ando sempre ocupado tentando reparar as catástrofes metereológicas pelas quais vocês são responsáveis). São Paulo, que gosta de política, me diz que em qualquer sociedade democrática uma obra como essa deve ser discutida com a comunidade. Aqui a meu lado, São Luís aproveita pra perguntar: por que gastar tempo e dinheiro para derrubar um prédio em perfeito estado e construir um novo e desnecessário enquanto dezenas de sobrados históricos continuam caindo aos pedaços na cidade que leva seu nome? São Marçal, que gosta de caçoar (desconfio que ele tem inveja da minha festa) me conta que o povo está chamando a nova capela de "asa delta de São Pedro", mas gosto é gosto e eu não ligo para essas gozações. Santo Antônio me cochicha ao pé do ouvido: no local onde está a nova capela existia uma vida comunitária intensa. De dia, os meninos empinavam pipa; à tarde, a rapaziada fazia seu sambinha olhando o pôr-do-sol majestoso; e, à noite, quantos namorados já não se beijaram embaixo das amendoeiras? Isso não existe mais. Em compensação, colocaram lá embaixo três bancos de madeira. De dia, os bancos recebem o sol a pino e ninguém é doido de sentar lá. À noite, a iluminação afugenta os namorados. Alguns de meus colegas perguntam-me o que achei da minha festa. Há muito tempo a festa tem sido para mim motivo de imensa alegria, e sempre ajudo no que posso (alguém aí se lembra qual foi a última vez que choveu durante a festa?). É sempre gostoso ver o povo se divertindo em meu nome, mas acho que estou ficando velho e saudosista, pois senti falta da festa como era até o ano passado. Senti falta do contato com o povo, e especialmente com meus devotos que brincam Bumba-boi (agora é São João quem me olha invejoso.) Nada me deixava mais alegre do que aquela santa balbúrdia que acontecia todos os anos quando os bois entravam na capelinha. Confesso que fiquei muito desapontado quando percebi que isso não acontecerá de novo. O que eu vi foi um arraial cheio de holofotes, caixas de som e rapazes da segurança que gentilmente se encarregavam de separar os Bois do resto do povo. Eu não preciso de nada disso. Vocês não acham que já há espetáculo demais e devoção de menos por aí? Deixem a minha festa em paz! Bom, chega. Já desabafei e ainda tenho muito o que fazer. Despeço-me desejando-lhes muita saúde, paz e felicidade para que possam continuar fazendo a minha festa por muitos e muitos anos. Com amor, São Pedro.
P.S. Espero que vocês saibam o que estão fazendo...
Gustavo Pacheco (Doutorando em Antropologia Social pelo Museu Nacional / RJ)
Arraial do Povo de Deus e as Festas Juninas em São Luís
Jacyara de Melo*
O Arraial do Povo de Deus é uma festa realizada por algumas igrejas evangélicas de São Luís, sob a liderança da Catedral de Louvor Maranata, do Vinhais. O evento é realizado no mês de junho, durante os festejos juninos. Essa festa foi criada aproximadamente há cinco anos pela Igreja da Paz desse bairro. Todavia, conflitos internos propiciaram uma divisão entre os membros desse grupo religioso e a igreja da Paz foi transferida do local, assumindo o seu templo a Maranata. De acordo com seus criadores, ou seja, pastores e lideranças evangélicas, o Arraial do Povo de Deus tem como finalidade primordial servir como alternativa para os evangélicos durante o período das festas juninas, isto é, o seu objetivo é afastar a participação de seus fiéis em arraias considerados profanos e "malignos." Para legitimar a realização do Arraial do Povo de Deus diante dos evangélicos, especialmente de pastores e líderes protestantes, os organizadores do evento aproveitaram-se de literatura bíblica, na qual, conforme informou-nos o pastor da igreja, há referências a um arraial organizado pelo povo de Israel durante a passagem pelo deserto, marcada pela realização de inúmeras festas. Entretanto, a idéia de realizar o Arraial do Povo de Deus gerou e continua gerando muitas polêmicas e conflitos entre diferentes igrejas evangélicas que discordam da realização desse evento. Essas divergências levaram algumas lideranças daquelas igrejas a proibirem a participação de seus membros no Arraial do Povo de Deus. Um dos principais motivos para da tomada dessa decisão por meio desses líderes, de acordo com os depoimentos, foi o mesmo apontado para as festas juninas: "esse arraial não tem propósito divino, mas serve apenas para divertimento, ou seja, para satisfazer os desejos da carne, assim como nos arraias mundanos." (pastor) O Arraial do Povo de Deus acontece, geralmente, nos fins de semana (sexta, sábado e domingo) das 19 às 24 horas. Nesse ano foi realizado dos dias 21 a 23 e de 28 a 30 de junho. Um palco foi montado no estacionamento da Igreja Catedral de Louvor Maranata, onde foram recebidos os cantores, bandas e grupos de teatro e feitas coreografias gospel. Quadrilhas também se apresentaram: os passos seguiam os de qualquer quadrilha, mas o conteúdo das músicas é gospel. Há um cantor evangélico que lançou um CD com os ritmos e toadas do Bumba-meu-boi, isto é, utilizou-se de matracas e pandeirões, a letra, enfatiza, contudo, o cristianismo. Para entrar no local do evento passa-se por um portão grande de ferro que leva para o estacionamento, completamente murado. Nesse ano, a entrada no Arraial do Povo de Deus foi gratuita. A cada ano faz-se uma reunião para decidir-se quanto ao pagamento ou não da entrada; no ano passado, por exemplo, os ingressos para o evento foram vendidos. Sempre há um grande número de patrocinadores do evento, como NBT e EUROMAR, entre outros, anunciados nos intervalos das apresentações. Os cantores e bandas que se apresentam durante o Arraial do Povo de Deus tocam forró, rock, pagode, reggae, entre outros ritmos. A maior parte do público presente no local é de adolescentes e jovens que dançam e agitam sensualmente seus corpos, gritam, pulam, se penduram nos ombros uns dos outros; os casais de namorados se envolvem em beijos e abraços apertados e demorados; muitos adolescentes afirmaram que estavam no local para "ficar" (termo que significa ficar com alguém por uma noite), por exemplo: "estou aqui para arranjar uma gatinha" (adolescente de uma igreja Batista). Alguns jovens tiram as camisas e andam apenas de bermuda ou calça. Diante de todas essas manifestações dos jovens, os organizadores do evento vão ao desespero. Eles, de vez em quando, sobem ao palco para pedir moderação, ou seja, "coloquem as camisas"; "não dancem de forma escandalosa", entre outras exortações que não surtem muito efeito. Outro aspecto importante do Arraial do Povo de Deus é a vestimenta: são raras as pessoas que se adornam com roupas típicas das festas juninas, ou seja, com blusas estampadas e coloridas, ou calças com pedaços de tecidos, entre outras. Todavia, os jovens e adolescentes usam roupas sensuais e que chamam a atenção, como cabelos pintados de verde ou vermelho, saias justas e curtas. Caracterizam-se normalmente como roqueiros. No local são armadas barracas que recebem os nomes das 12 tribos de Israel e cada uma delas pertence a uma igreja evangélica diferente que participa do Arraial do Povo de Deus, por exemplo: Tribo de Levi, da Igreja Presbiteriana, e Tribo de Judá, da Igreja Redentora Cristã, entre outras. Distribuídas em um dos lados do muro do estacionamento, as barracas vendem comidas típicas do período junino, como bolo de fubá, mingau de milho e pamonha. Não são vendidas bebidas alcóolicas, apenas refrigerantes e sucos. Além das igrejas mencionadas, participaram do evento membros das igrejas Universal do Reino de Deus, Assembléia de Deus, Batista e Quadrangular, entre outras. Um dado importante a ser ressaltado é a participação de católicos no Arraial do Povo de Deus. No Arraial do Povo de Deus não há apresentação de Bumba-meu-boi, Cacuriá, Tambor de Crioula, ou seja, manifestações da cultura popular maranhense. Na realidade, o folclore de um modo geral é considerado maldito pelo povo evangélico que vê nele a presença do "demônio." Ao mesmo tempo, reconhecem a atração que essas manifestações exercem na mentalidade popular e de seus fiéis, em sua maioria da classe baixa da nossa sociedade. Muitos desses fiéis, conforme alguns depoimentos, antes de ingressarem no rol dos membros de uma dessas igrejas, participou de grupos de bumba-meu-boi e quadrilhas. "Eu participava do Boi da Maioba e saí quando virei crente, mas gosto ainda hoje dos ritmos do Bumba-meu-boi." Essas razões contribuíram para o argumento dos líderes na criação do Arraial do Povo de Deus, reforçando, portanto, a beleza e a força da cultura popular e atração que ela exerce sobre os indivíduos que nasceram ouvindo suas narrativas através dos seus pais e avós e nela se envolveram. O Arraial do Povo de Deus pensado para separar os fiéis protestantes da cultura popular maranhense, especialmente no período junino, demonstra o preconceito em relação às crenças e práticas religiosas e folclóricas do Maranhão e, portanto, de sua gente. Entretanto, por outro lado, usam de ritmos dessa cultura, principalmente o forró, para que seus fiéis se divirtam e não se "desviem" para o Boi, o Cacuriá. A tentativa de romper e repudiar a cultura popular dos protestantes revela e ressalta a importância do folclore na mentalidade de um povo que, antes ser religioso, é maranhense, nascido nos bairros onde se escutam as toadas do Boi, dançando nas quadrilhas, se requebrando no Cacuriá e no Tambor de Crioula.
*Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão
Comédias, Comeres e Folguedos: relato de festa popular na Alcântara de 1708
(Esta pesquisa faz parte do sub-projeto "Igreja e padrões sociais no Maranhão do século XVIII" que, por sua vez, integra o projeto "Reformas Pombalinas e Mudança nos Padrões Sociais" subvencionado pelo PIBIC/CNPq e sob coordenação dos professores José Dervil Mantovani e Antônia da Silva Motta.)
Raimundo Araújo
(Graduando em História - Licenciatura plena, pela Universidade Federal do Maranhão).
Alcântara, ou Alcântra, pronúncia provável, ano de 1708, no então estado colonial do Maranhão. Dia 24 de julho, festividade de São Cristóvão. O Frei Manoel da Trindade é convidado, juntamente com outros religiosos do convento de Nossa Senhora do Monte do Carmo, pelo juiz da confraria de São Cristóvão, Antônio Mendes, a celebrar missa e pregar pedidos por ocasião do referido dia.
" (...) neste ano presente de mil e setecentos e oito foi o suplicante com seu prelado e mais Religiosos a aldeia de São Cristóvão para no seu dia do dito Santo lhe cantarem missa e pregar pedidos pelo Juiz da Confraria que o era Antonio Mendes seuredo Como de Efeito satisfizeram." (O texto do documento bem como sua rigorosa notação paleográfica foram alterados para facilitar a compreensão do leitor. O manuscrito, na íntegra, juntamente com um breve comentário, foi encaminhado para publicação nos anais do X Congresso Brasileiro de Folclore.)
São organizados, como era usual, banquetes de confraternização e em agradecimento aos religiosos. À cabeceira da mesa, Frei Manoel é presenteado com um chouriço. Por não querer comê-lo naquele instante, Juliana Pinheira, esposa do Juiz da confraria de Santa Ana, Jozeph de Souza, embrulha-o e devolve-o, solicitamente, ao frei, que por fim o guarda sob a manga. Frei Manoel da Trindade, a partir daí, é denunciado pelos demais religiosos; ele cometera, segundo alguns, atos de impiedade: celebrara missa com o chouriço na manga e comera dele em plena sexta-feira sendo alimento impuro. A defesa elaborada por Manoel da Trindade, uma justificação, juntamente com o depoimento de quatro testemunhas, legaram-nos um superficial mas instigante relato sobre as festividades de São Cristóvão e Santa Ana ocorridas naquela quarta e quinta-feira do mês de julho de 1708. Através dele sabemos que, à noite, houve uma comédia, encenada pelos participantes.
" (...) chegados que foram a dita aldeia em vinte e quatro de julho a espera do dia do dito Santo e chegada que foi a noite em a qual houve pelos Seculares muitos folguedos depois da ceia e passadas horas bastantes da noite entraram a representar uma comedia na qual Entre as jornadas dela que foram três houve bailes e entremezes (Segundo o Aurélio, "pequena farsa de um só ato, burlesca e jocosa, de caráter popular ou palaciano, a qual termina geralmente, por um número musical cantado, e cujas origens remontam ao século XII".) e musicas Como antes E no fim da dita Comedia."
Após a encenação, reinaram os folguedos.
"(...) acabada que foi a dita Comedia foram os ditos seculares com suas musicas e dançando pelas Casas dos assistentes com seus instrumentos E a cantar seus tonilhos Em que gastaram muito tempo da noite Como e usual em semelhantes folguedos e comedias gastar-se e passar-se muitas horas."
A respeito das festas populares no Brasil colonial, como esta de que tratamos, Mary Del Priore destaca:
"Procissões, festas ou quaisquer outros momentos de lazer na Colônia acabaram por revelar o quanto era duro o cativeiro para os escravos e difícil o cotidiano para os colonos pobres. A alegria que irrompia de maneira impetuosa e descontrolada nesses momentos revelava a necessidade que esses grupos sentiam de encontrar formas de expressar sua cultura e o estado de opressão em que viviam." (PRIORE, Mary Del. Religião e Religiosidade no Brasil colonial. Ática, São Paulo, 1995).
As festas constituíam, assim, um espaço de liberdade ou liberação de todos os problemas de um sistema social autoritário, violento e excludente. O documento nos transmite, ainda, a idéia de um grande sentimento de religiosidade por parte daquela população e corrobora a visão de vários estudiosos do período, como Eduardo Hoonaert (HOONAERT, Eduardo. A igreja no Brasil-colônia (1550-1800). Brasiliense, São Paulo, 1982), sobre a importância da atividade leiga na conformação de uma religiosidade autônoma e espontânea na colônia. A atividade dos religiosos, por exemplo, estava - percebe-se no relato - subordinada aos costumes e necessidades locais.
"(...) foi o suplicante com seu prelado e mais Religiosos a aldeia de São Cristóvão para no seu dia do dito Santo lhe cantarem missa e pregar pedidos pelo Juiz da Confraria (...) Como de Efeito satisfizeram."
Destaca-se o papel desempenhado pelas confrarias. Destas, diz Priore,
"Sua finalidade específica era promover a devoção a um santo. Geralmente, um grupo de pessoas de uma localidade se organizava para manter o culto, a capela e a festa no seu dia."( Id. Ibidem, p. 37).
Coube à confraria, naquela noite, a preparação dos comeres. O próprio Jozeph de Souza designara mulheres para esse fim. Elas passaram a noite inteira preparando os quitutes do dia seguinte. O juiz solicitou-lhes uma missa à parte por esse motivo.
"(...) disse ela testemunha [corr.]( Notação paleográfica: uma palavra corroída.) que seu marido Jozeph de Souza Rodrigues fora mesmo pessoalmente [corr.] que as [corr.] [corr.] estavam e eram horas de se dizer missa e saírem as mulheres antes de amanhecer foi chamar o dito padre para que a fosse dizer Como tinham ficado ao outro dia a noite [preparando os comeres] e disse ela testemunha que lhe parecia serem duas horas antes da manhã porque logo amanheceu sem haver tardança alguma (...)."
Havia uma tênue distinção entre práticas festivas e religiosas e o terreno do proibido. Após os dias de São Cristóvão e Santa Ana sucedeu-se a sexta-feira, ocasião de austeridade e comedimento. Manoel da Trindade sentiria, então, as conseqüências da justaposição ostensiva - ainda que por descuido - de elementos sagrados e profanos.
"(...) no banquete de jantar pôs o dito Juiz na mesa em cada cabeceira dela junto Com o mais [ileg.] (Notação paleográfica: Uma palavra ilegível.) a metade de um chouriço do Reino e como o suplicante presidisse em uma das cabeceiras da dita mesa se lhe oferecesse (...) a metade do dito chouriço para que a guardasse para a tarde o merendarem (...). [Como na hora] de jantar [corr.] não [corr.] quisesse merendar o suplicante inadvertidamente ficou com o dito pedaço de chouriço embrulhado em o dito papel e lenço que por ser coisa tão limitada não avultava mais que o mesmo lenço;"
O chouriço era alimento proibido na sexta-feira. Através da memória oral soubemos ser um doce feito com sangue de porco.( SILVA, Maria de L. A. Relato recolhido em 07/06/2002). O dicionário, porém, traz uma outra acepção, mais provável, visto ter sido guardado sob a manga do religioso: "Enchido de porco, cujo recheio é misturado com sangue e curado ao fumo; iguaria feita de sangue de porco, especiarias e açúcar [sin. lus.: chouriça. Cf. lingüiça]" (HOLANDA, Aurélio Buarque de. Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1986. ). As admoestações e prescrições da igreja decerto estavam mais presentes no imaginário da população, ou pelo menos mais amedrontantes. Vejamos:
" (...) chegado que foi o suplicante as pousadas do juiz Jozeph de Souza seu compadre e a despedida lembrou o pedaço de chouriço a troco de dizer o dito juiz que se não haviam de ir sem almoçarem o tirasse o suplicante da manga dizendo que se o não tinham merendado almoçariam procurando farinha para isso e começou a repartir pelas pessoas que ali estavam estando já em termos de se comer se advertiu por uma das ditas pessoas ser sexta feira e cada uma delas logo largou os bocados que tinham nas mãos que [corr.] suplicante tinha repartido e dizendos lhe que [corr.] ali entre eles aquele descuido porque donde não havia mal [corr.] não havia pecado."
O relato, aqui simplificadamente exposto, aponta pistas fundamentais para se pensar a religiosidade e o cotidiano da população colonial no Maranhão. Corrobora, como foi dito, vários elementos já abordados pela historiografia, como a função das confrarias, por exemplo, na sociabilidade daquele período. Por outro lado, problematiza outros, como a consolidação tardia do teatro na América Portuguesa. Sobretudo, a presença do entremez. Segundo Décio de Almeida Prado, a prática desse gênero teatral chegaria, por exemplo, ao Rio de Janeiro, somente a partir de meados do século XIX (PRADO, Décio de Almeida. História Concisa do Teatro Brasileiro, São Paulo, Edusp, 1999, p. 56). Especificamente sobre o tema da festa popular, a superficialidade do relato não permite afirmações categóricas de nossa parte. De fato, sua descrição, embora figure substantivamente no manuscrito, não era o objetivo primeiro do documento. Ainda assim, ele fornece-nos dados importantes; traços gerais do que constituiu, e em grande medida constitui, o vocabulário lúdico das populações pobres e marginalizadas do Brasil: comédias, comeres e folguedos. Essa esfera de liberdade e oposição representada pelo tempo festivo, forjada a partir da vivência de resistência e luta, vale lembrar, não está distante de nossa situação atual.
Festa do Divino Espírito Santo (2a. parte)
Carlos de Lima
Foi trazida para o Brasil no século XVI, segundo Câmara Cascudo, e existe (ou existia) no Amazonas, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo. Popularizou-se a ponto de ter dado azo a que José Bonifácio astutamente haja escolhido para Pedro I o título de Imperador, e não Rei, "porque o povo estava mais habituado com o nome", por causa do Divino. (Cascudo). "Mas o caráter arcaico destas festas vai-se progressivamente perdendo. As "folias desapareceram. O terço entoado pelas ruas é substituído pela filarmônica. Ao pobre pedir sucedeu a menina de luvas e vestidos de tule. As moças casadoiras, em grande toilette, são agora os "pajens da coroa" - queixa-se o cronista ilhéu. Tal igualmente vai acontecendo no Brasil. Parece que somente em Santa Catarina e no Maranhão ela ainda se reveste de certo esplendor, e coincidentemente nos dois locais em que foi mais intensa a influência açoriana. Das festas de Mataporcos (Estácio), do Campo de Santana e da Lapa do Desterro (Glória), no Rio de Janeiro, de 1853 a 1855, dá-nos Melo Morais Filho uma descrição minuciosa em uma dezena de páginas de seu livro "Festas e Tradições Populares do Brasil": a música dos barbeiros, escravos negros, com suas quadrilhas e fandangos; o mastro encimado por uma pomba prateada e, a baixo, a bandeira do Divino; a foguetaria e os repiques de sinos; as cantigas, etc.
"A pombinha vai voando a lua a cobriu de um véu, o Divino Espírito Santo pois assim desceu do céu."
"Nos ranchos - continua - um rapazola ia com a bandeira, sendo as vestimentas de todos casaca e calções escarlates com galões de ouro, colete de seda branca debruada de cores, sapatos baixos de fivela, chapéu de feltro de copa afunilada e abas largas, ornado de fitas, distinguindo-se o porta-estandarte por vestuário mais pomposo e pelo grande tope de flores, pregado no chapéu, de forma diferente." Dos bandos da "folia" à hora em que, "na casa do festeiro roncava o baile", passando pela eleição das mesas das Irmandades, os leilões, a missa, até os "doze velhos cabeçudos, com suas competentes lunetas, casacas de rabo de tesoura e botões de papelão, andando curto, arrastando os pés, que seguiam para o tablado, às risadas dos espectadores, que lhes aplaudiam os desgarres", figuras egressas das antigas festas religiosas tradicionais de Portugal que, decadentes as do Divino, acabaram, depois, por refugiar-se no Carnaval brasileiro. O Campo de Santana sintetizava o grosso da função: na rua de S.Pedro uma fila de barracas assemelhavam ter os tetos de fogo e nas portas e balcões os vendedores de sorte e de comidas gesticulavam e gritavam como possessos; as lanterninhas das quitandeiras faiscavam, as músicas estrondavam e "a multidão com suas vestimentas pitorescas, apinhada no chafariz que aí existia, ou movendo-se em grupos, lembrava um quadro de mestre da escola veneziana. Quando as luminárias acendiam-se, o campo regurgitava de curiosos e de gente que comprava sortes, ceava nas barracas, caminhava ao acaso e recebia entradas" para as barracas que exibiam desde ginástica e quadros vivos, mímicas, pirâmides humanas, volteios eqüestres, teatrinho de bonecos, comédias, e mágicas. "No império, o imperador, com seu manto verde e sua coroa dourada, dominava no meio de sua corte... Eis o que era naquele tempo a festa popular do Divino, quando a nossa sociedade não tinha a pretensão de querer impor-se pela decadência de seus costumes e pelo enervamento de seu senso religioso" - lamenta. Vitorino Nemésio, em "O Segredo de Ouro Preto e outros ensaios", depõe como partícipe da festa do Divino no Encantado, em Inhaúma (Rio), realizada no dia 8 de junho de 1852. "Jamais prosa ou voz viva descreverão capazmente esta romaria a ilhéus atrás de uns vitelos enfeitados, ao comprido de subúrbios fragosos de uma metrópole de milhões de, no suor e no pó de uma fila compacta de festeiros, rente aos camiões e bondes de uma população sortida e alegre que traja à frescata." Porque são os descendentes dos açoreanos, que há mais de cem anos talham bifes e churrascos nos açougues cariocas e fundaram o Império do Encantado, os que agora fazem a festa. "Hoje os netos de Ti João da Ilha e de Tiazé ainda desfilam ao som do Pezinho, no milagre da fé milenária enriquecida e transmitida - perene!"
"Abençoai a todos nós com a vossa divindade" entoam os cantadores.
Diversos Impérios houve no Rio de Janeiro: no largo do Estácio, o da Floresta, o de Maracanã.
O ten. cel. Lima Figueiredo, em "Cidades e sertões" transcreve crônica de Otávio Tavares sobre o festejo do Divino no lago Janauacá, Amazonas: "Numa canoa engalanada com folhas de palmeira e totalmente iluminada com lanternas e papéis coloridos são colocadas as insígnias do Divino. Noite escura. Acompanhando aquela canoa, mil outras, de todos os feitios, desde a ubá fragílima até a igarité de fundo chato, e menos perigosa, coalham o lago, "dando a impressão de que há boiando pequeninas ilhas floridas. Terminada a procissão são colocados dispositivos cheios de azeite protegidos com papel de seda de todas as cores - e acesas as grisetas (Griseta - Lamparina ) - o lago toma um aspecto grandioso oferecendo-nos uma orgia de cores como se houvesse tombado sobre ele um arco-íris aceso e partido aos pedaços, cujos fragmentos ficassem a boiar, a boiar, dentro da moldura tenebrosa das selvas..." Assemelha-se aos "Irmãos da Canoa", Irmandade que promove os festejos do Divino em Tietê, S. Paulo, que Alceu Maynard Araújo descreve em seu "Documentário Folclórico Paulista": "Sociedade sui generis - uma confraria sem estatutos, sem reuniões, sem diretoria eleita (apenas com um presidente perpétuo, o ilustre folclorista e historiógrafo Benedito Pires de Almeida), porém onde há disciplina e fraternidade. Embora se dividam em dois grupos: irmãos do rio acima e do rio abaixo, sob o mesmo uniforme se unem todos os devotos, irmãos de uma só Irmandade - a do Divino Espírito Santo. Dirigem-na o mestre e o contramestre, também denominado "Irmão Andante". Figuram ainda o trio indispensável: "bandeireiro", alferes da bandeira do Divino, e "folião", violeiro, chefe da "folia , grupo angariador de esmolas (constituído por meninos, com caixa e ferrinhos) e o "salveiro" que, com trabuco, dá "salvas", as descargas louvadoras ao divino patrono. Quarenta e cinco dias antes da festa, os grupos vão esmolar, rio acima e rio abaixo, dançando o religioso "cururu" (Cururu - Dança, canto em desafio, relacionados com as festas religiosas no plano da louvação popular.) e, quando remam, cantando a "serenga" (Serenga - Canto sem palavras, dando a impressão de cantochão, ajudando a ritmar as remadas.). No último domingo do ano é o dia máximo da festa - há o encontro das canoas. Das que angariaram donativos rio acima e rio abaixo. (...) há o "encontro". Os rojões sobem, as bombas espocam ensurdecedoras e a multidão delira. Findo o encontro as canoas voltam para o Porto Velho, onde os irmãos da canoa, festeiros, autoridades religiosas, civis e militares desembarcam, rumando com milhares de pessoas, em procissão, conduzindo o Divino até à matriz. Os romeiros com seus tradicionais uniformes brancos, carapuça vermelha, descalços, remos arvorados, penetram na igreja. Há uma cerimônia religiosa." Em Santa Catarina a festa, sendo a mesma, toma tons diferentes: "Da Bandeira pendem fitas multicores, que na sua romaria são acrescidas de outras fitas ofertadas pelos fiéis; da orquestra constam o tradicional bombo, de batida característica, sem faltar a rabeca, de som indispensável na orquestra, o violão, a viola com suas quatro cordas, a gaita, os pandeiros e a cantoria pelo mestre, que, além dos versos tradicionais, improvisa, homenageando pessoas importantes que prestigiam as bandeiras". Mas até a queixa é a mesma: "Não revestida com as formalidades e simbolismo do passado, quando em cada povoado uma comissão de irmãos da Irmandade do Divino, portando as suas "opas", acompanhava o grupo de "foliões" na sua tarefa de recolher ofertas." (Doralécio Soares, "Folclore Brasileiro". Em São Paulo, segundo Hélio Damante (Folclore Brasileiro), "é intrinsecamente pobre, limitando-se ao grupo de cantadores e músicos, que dão seu recado, levam o Divino, enfeitado de fitas, a percorrer as casas, e depois se despedem "até o ano que vem", como nestes versos, recolhidos em Mogi das Cruzes:
O Divino se despede nesta hora de alegria. Se despede e vai deixando Esta rica companhia.
Viola, cavaquinho, caixa, reco-reco incluem-se no instrumental". Em Goiás festeja-se o Divino em várias cidades: em Pirenópolis, desde o ano de 1819 existe a festa do Divino, que compreende novenário, procissão, mastro, e naturalmente, Imperador e Mordomos, além da Coroa e Bandeira. Mas, o que caracteriza a festa do Divino de Pirenópolis é a presença de 80 a 120 cavaleiros com máscaras de papelão na forma de cabeças de boi, enormes chifres ornados com flores de papel, vestindo roupas coloridas, que percorrem as ruas durante tardes e noites, do sábado à terça-feira, e se apresentam no "campo das cavalhadas". "Na terça-feira, ao final dos festejos, sairão atrás da Banda de Música até à casa do imperador, para, juntamente com muitas outras pessoas envolvidas,"entregar a Festa". (Carlos Rodrigues Brandão, "O Divino, o Santo e a Senhora") As festas populares e tradicionais não podem ser apenas consideradas "eventos", pois, como dizem Francisco Weffort e Márcio Souza ("Um olhar sobre a cultura brasileira") "das mais tradicionais às mais modernas , deitam raízes profundas na vida dos grupos que as promovem". É lícito supor que o culto ao Divino Espírito Santo tenha sido trazido ao Maranhão pelos primeiros açorianos que aqui chegaram, em duas levas: a primeira em 1620, trazida por Manuel Correa de Melo, por conta de Jorge de Lemos Bittencourt, e a segunda por Antônio Ferreira Bittencourt, no ano seguinte, partes da imigração de 200 casais que viriam construir dois engenhos de açúcar, plano do provedor-mor do Brasil Antônio Muniz Barreiros. No Estado o Divino é cultuado em várias localidades, principalmente na capital e em Alcântara. Na cidade destacam-se, entre outras, as festas promovidas pela "Casa das Minas" e pela "Casa de Nagô", dois templos de culto afro-brasileiro. Em Alcântara alcança grande brilho, muito embora não tenha mais a pompa dos tempos da nobreza imperial da velha cidade, quando até 13 festeiros por ano promoviam disputa para fazer a melhor figura. Hoje, se aparecem 3 dispostos a essa responsabilidade, são muitos! Os festejos do Maranhão distinguem-se dos demais pela presença marcante das "caixeiras", geralmente senhoras idosas que, com toques característicos, acompanham os cortejos, ruflando grandes caixas, no feitio dos antigos tambores militares. São em número variável, de 6 a 10, e são elas que tiram as cantigas, quase sempre improvisadas. Sobre a festa de Alcântara temos dois trabalhos publicados: "A festa do Divino Espírito Santo em Alcântara (Maranhão)", em 2a. edição de 1988, e " Festa do Divino", de 1999, "um roteiro a altura da sabedoria dos melhores "mestres-salas" (segundo a folclorista Maria Michol Pinho de Carvalho), organizado, com a audiência de antigos moradores de Alcântara, do domingo de Pentecostes (primeiro e último dia da comemoração), dia a dia, passo a passo, com o único fim de proporcionar às novas gerações o esquema do tradicional festejo, para que seja ele realizado com, pelo menos, as mínimas obediências aos padrões antigos. Seria fastidioso repetir aqui, para Alcântara, o que foi copiosamente dito acerca do Divino em outros lugares. Falemos apenas das diferenças existentes: O Império compõe-se de 13 pessoas: 1 Imperador (que a cada ano se alterna com 1 Imperatriz), 1 Mordomo-Régio e 5 Mordomos-Baixos (Mordomas, no caso da Imperatriz). A cor oficial do Imperador é a vermelha; o verde, a do Mordomo-Régio. Os demais adotam o azul-claro, ou o rosa. Integravam a Folia petitória, que antigamente percorria léguas e léguas de estradas, 1 bandeireiro, 3 caixeiras, 3 bandeireiras (meninas), 2 cidadãos de confiança e carregadores para o transporte das ofertas, além do "Vicente", um menino que recolhia as esmolas em dinheiro, assim chamado (não se sabe porquê) fosse Pedro, João ou Marcelo. Tais folias não mais se realizam, pois as oferendas são cada vez mais raras, seja pela apertura geral, seja pela religiosidade que parece minguante, não compensando as despesas da viagem. Foram-se os bons tempos em que os devotos ricos davam dois, três bois para a festa, capoeiras inteiras de galinhas, de presente para o Divino. O fazendeiro, hoje, nas mais das vezes "gente de fora", não acredita mais nos poderes do Divino, opera no open-market, acessa a Internet, pertence à UDR. Por outro lado, é muito perigoso, impraticável mesmo, andar por ínvios caminhos carregando uma coroa de prata... se nem os santos antigos têm assegurada sua permanência nos nichos das igrejas! Na quarta-feira, véspera da Ascensão, dá-se a chegada do mastro ao porto do Jacaré: sob intensa foguetaria e música da banda, salta do barco um tronco de 10 metros, ornamentado com ramos de murta e é conduzido aos ombros de uma vintena de caboclos e cavalgado por inúmeras crianças. O cortejo de festeiros, caixeiras, músicos e toda a multidão de gente percorre as ruas da velha cidade até atingir o local apropriado, onde é erguido, plantado e enfeitado com cachos de banana e cocos da praia. No topo, aberta ao vento, oscila nos gonzos, tangida pelo vento, a bandeira do Santo, com a coroa, ou a pomba. Durante o percurso as cantoras tiram versos e os carregadores respondem com o refrão:
"Que bonito pé de mato (arê, arê-ê-ê-ei - a) que a natureza botou (arê, are-ê-ê-ei - a) para me servir de mastro (arê, are-ê-ê-ei - a) para o nosso Imperador (arê, are-ê-ê-ei-a)"
As mesas de doces são uma história à parte pela criatividade de seus autores - Antônio Tavares, Ênio Aymoré Ramos, Diógenes Ribeiro e outros tantos que deixaram fama de grandes decoradores, substituídos por D. Mariazinha Bastos, Antônio Tavares Neto, Gerson Brito etc. e onde se destacam os excepcionais "doces-de-espécie", simples ou duplos, no feitio de folhas, cestos, bichos etc. etc., receitas e habilidades transmitidas de geração a geração. E as "prisões"? A mando do Imperador, um vassalo, com seu séqüito, vai à casa de um Mordomo "prendê-lo". Cada "preso" incorpora-se ao cortejo, ao som dos cânticos das caixeiras e gritos do povo... e vai ao próximo Mordomo. Por fim, todos visitam o mastro, onde, para se libertarem, pagam prendas ao Divino. E as "visitas" dos Mordomos ao Imperador? À porta de cada Mordomo, grita o Mestre-Sala: "- Viva o Mordomo em trânsito! E toca-se um trecho do Hino Nacional. Assim vão, de casa em casa, à luz mortiça das espaçadas lâmpadas de Alcântara e dos fogos de artifício e das lanternas de papel colorido, até ao Imperador, que sai ao encontro da farândola folgazã, e, entrando todos à casa, tem início o baile e os comes-e-bebes até à madrugada! Haja fôlego para tantos folguedos, pois todos os dias da semana são dias de prazer e de alegria! Mas, ainda há o domingo-do-meio e outra semana em que o Imperador retribui as visitas dos Mordomos, e são novos desfiles e bailes, para chegar, finalmente, o grande dia - o domingo de Pentecostes: missa às 10, o Imperador de azul-marinho; Mordomos de ternos escuros; os mais, de vermelho, até as pombinhas, obrigadas à regra, engraçadas nas suas jaquetinhas rubras, aninhadas nas bandejas! O almoço do dia é vário e farto, toda a tradição da cozinha portuguesa apurada pelo negro e pelo índio: a galinha assada, de molho pardo, o vatapá, o bolo de arroz, as tortas (fritadas) dos gostosos camarões de Alcântara, com o acompanhamento indispensável da farinha d'água... e o molho de pimenta grosso pedindo grogue, e o vinho à vontade, que os festeiros têm mão-aberta, o governo deu ajudazinha, os fiéis cooperaram, o comércio também; os doces variados, de coco, de buriti, de goiaba, nas compoteiras antigas remanescentes de outras festas, de outras casas, de outra gente rica e poderosa... branco no Senado da Câmara, pretos no eito plantando algodão, Sinhozinho em Coimbra estudando "leses"! Mas... todos para igreja. Sai a procissão: o rapaz com a bandeira grande, o andor de seda brilhante, em cujo nicho de abriga a Coroa fulgindo ao sol, levado por quatro moças em toalete de gala, seguido pelo Imperador fardado, botões dourados, dragonas, luvas, cetro, o manto escarlate, guardado por dois vassalos, de roupa cinzenta e faixas verde-amarelas atravessadas ao peito. E os Mordomos com seus séqüitos e a orquestra e o povo. De vez em quando estronda um foguete de taboca. Nas janelas as pessoas rezam e se benzem... O Divino vai passando, misericordioso, dispensando bênçãos, concedendo graças! Recolhe-se a procissão. Realiza-se o "pelouro". São revelados os nomes dos próximos festeiros. No dia seguinte o Imperador irá de casa em casa investindo nas funções os escolhidos. Acabou-se a Festa do Divino. Outra Festa do Divino está começando.